Das metáforas emocionais ao mapa corporal das emoções
Peito apertado, borboletas no estômago, cabeça fervendo. Exemplos como esses de linguagem figurada, comumente utilizados para descrever alterações fisiológicas desencadeadas pelas emoções em nossos corpos, foram, por muito tempo, vistos como estratégia exclusivamente linguística para expressar estados emocionais. Nas últimas décadas, a ciência tem mostrado que essas metáforas ultrapassam o aspecto linguístico ou poético e dão base a estudos fundamentais da cognição humana.
Corporificação como base do sistema conceitual humano
A linguística cognitiva, à época de seu surgimento, com a publicação do livro Metaphors we live by (University of Chicago Press, 1980), de George Lakoff e Mark Johnson, já explicava o papel das metáforas como formas de pensamento e ação. À luz da Teoria da Metáfora Conceitual, os autores propuseram que nosso sistema formador de conceitos é estruturado por metáforas, uma vez que nossa forma de compreender o mundo, raciocinar e agir está profundamente enraizada em sistemas metafóricos (Lakoff & Johnson, 1980). Para os linguistas cognitivos, metáforas são, por natureza, recursos conceituais, não apenas linguísticos, e expressões como “estou para cima” (quando feliz) ou “estou para baixo” (quando triste) são, para além de modos de falar, reflexo de como organizamos conceitos abstratos, como as emoções, a partir de experiências corporais concretas, como a orientação espacial.
As ciências cognitivas, então, abriram espaço aos estudos de cognição corporificada (do inglês embodied cognition), partindo do pressuposto de que o corpo e a experiência corporal moldam a forma como compreendemos o mundo, o tempo, as emoções, as relações sociais, a moralidade e, até mesmo, a matemática, uma vez que todos esses conceitos se constroem sobre bases sensório-motoras (Barsalou, 2008; Johnson, 2007, 2010; Lakoff & Johnson, 1980; Lakoff & Núñez, 2000; Varela et al., 2016). As metáforas emocionais, então, ganharam novo suporte científico, quando alguns estudos em neurociência demonstraram que as emoções realmente deixam marcas físicas em nossos corpos, e de forma surpreendentemente previsível.
Façamos um miniexperimento. Pegue uma folha de papel, um lápis ou uma caneta - ou qualquer outro item que sirva para escrever sobre o papel. Com as ferramentas em mãos, desenhe dois pares de silhuetas humanas como as da imagem abaixo, mas não se preocupe em ficar perfeito.
Adaptação do instrumento emBODY, desenvolvido por Nummenmaa et al. (2014). (Imagem: Gerada com o Canva.)
Silhuetas desenhadas, agora feche os olhos e imagine como a atividade do seu corpo se comporta quando você sente RAIVA. No par superior de silhuetas, pinte, no corpo à esquerda, as regiões cuja atividade você sente aumentar ou ficar mais forte (mais quente), em seu próprio corpo, ao sentir raiva. No mesmo par, agora na silhueta à direita, pinte as regiões cuja atividade você sente diminuir ou ficar mais fraca (mais fria) ao sentir a mesma emoção. Repita esse processo imaginando como seu corpo se comporta quando você sente FELICIDADE.
Tome um tempo para comparar os dois pares de silhuetas (raiva e felicidade).
Você percebe, entre eles, alguma similaridade?
Em busca de um mapa corporal das emoções
Para entender como nós percebemos as emoções em nossos corpos, em 2014, um grupo de pesquisadores da Universidade de Turku, na Finlândia, liderado por Lauri Nummenmaa, revelou ao mundo aquilo que os pesquisadores chamaram de mapas corporais das emoções(Nummenmaa et al., 2014). O estudo reuniu centenas de participantes adultos que foram convidados a identificar, em representações gráficas do corpo humano, quais regiões sentiam mais ativadas ou desativadas diante de diferentes emoções. O resultado trouxe contribuições relevantes à compreensão da corporificação das emoções, ao demonstrar que cada emoção investigada possuía um padrão único de percepção de ativação corporal. A descoberta permitiu identificar os mapas corporais emocionais, consistentes entre os participantes.
Topografia corporal das emoções básicas (superiores) e não básicas (inferiores) associadas a palavras. Os mapas corporais mostram regiões cuja ativação aumentou (cores quentes) ou diminuiu (cores frias) ao sentir cada emoção. (Imagem: reprodução e tradução livre de Nummenmaa et al., 2014).
Apesar do impacto positivo dos resultados do estudo, uma pergunta permaneceu: seriam essas reações aprendidas ao longo da vida ou já estariam presentes desde a infância? Para responder a essa questão, em 2016, o mesmo grupo de pesquisadores publicou um novo estudo investigando o padrão de percepção de atividade corporal emocional em crianças e adolescentes (Hietanen et al., 2016).
O desenho experimental foi semelhante ao de 2014: participantes mais jovens, divididos em 5 grupos etários (6, 8, 10, 14 e 17 anos), foram convidados a apontar, em silhuetas humanas, onde sentiam diferentes emoções no corpo. O resultado mostrou que, embora houvesse pequenas variações ligadas ao desenvolvimento, os padrões gerais eram incrivelmente parecidos com os observados em adultos. Já na infância, felicidade, medo, tristeza e outras emoções básicas pareciam ter seus territórios relativamente bem definidos no corpo.
Topografia corporal das emoções básicas associadas a palavras. Os mapas corporais mostram regiões cuja ativação aumentou (cores quentes) ou diminuiu (cores frias) ao sentir cada emoção. Cada linha representa um grupo etário específico, demonstrando a evolução da percepção da granularidade dos mapas corporais emocionais. (Imagem: reprodução e tradução livre de Hietanen et al., 2016).
Essa descoberta é importante, segundo os autores, porque reforça a ideia de que as emoções não são apenas construções sociais, fruto do aprendizado cultural. Elas apresentam bases biológicas sólidas, manifestando-se de maneira semelhante em diferentes idades, e essa compreensão de como crianças e adolescentes sentem suas emoções pode abrir portas para novas estratégias de educação emocional e saúde mental.
Possíveis diferenças culturais
Um dos grandes desafios científicos é atribuir universalidade aos fenômenos psicológicos humanos sem acessar diferentes populações, sob diferentes contextos sociodemográficos, geográficos e culturais (Arnett, 2009; Henrich et al., 2010). Pensando nos padrões perceptuais emocionais, será que pessoas de países e tradições distintas, com línguas e costumes tão diversos, sentem as emoções em seus corpos da mesma maneira? Essa pergunta guiou um terceiro estudo, publicado em 2020 pelo mesmo grupo de pesquisadores da Finlândia, agora visando à investigação de eventuais variações culturais nos mapas corporais das emoções (Volynets et al., 2020). Com dados de 3.954 indivíduos oriundos de 101 países, o resultado do estudo trouxe novas evidências de que os padrões de representação corporal das emoções parecem mesmo universais, com a atividade fisiológica de felicidade, medo, raiva, nojo e outras emoções básicas representadas em regiões semelhantes do corpo, independentemente da cultura de origem dos participantes.
Isso sugere que, apesar das inúmeras formas de expressão emocional que variam entre culturas — como rir, chorar, gesticular ou silenciar —, a experiência fisiológica das emoções parece universalmente compartilhada. Os modelos teóricos e os estudos cada vez mais modernos sobre as emoções reforçam que emoções não são abstrações vagas da mente, mas experiências concretas que moldam e são moldadas pela nossa fisiologia. Ancoradas no corpo desde a infância e expressas de maneira semelhante em diferentes culturas, as emoções revelam uma base comum da experiência humana.
Percepção das emoções em diferentes grupos sociais
Se, por um lado, há estudos sugerindo que os seres humanos compartilham uma base fisiológica comum para sentir emoções, por outro, nem sempre essa complexidade emocional é devidamente reconhecida em outras pessoas. Um estudo do grupo de pesquisadores do INCT-SANI, recentemente submetido à publicação, investigou como estudantes universitários atribuem emoções a diferentes grupos sociais, como estudantes universitários e pessoas em situação de rua. Em um dos experimentos que compuseram o mestrado de Ruth Lyra Romero, hoje doutoranda em Ciências do Desenvolvimento Humano na Universidade Presbiteriana Mackenzie, fotos desses dois grupos sociais foram avaliadas em termos de calor humano e competência, dimensões contempladas no Modelo de Conteúdo dos Estereótipos (Fiske et al., 2002), que prevê que a combinação dessas dimensões gera estereótipos distintos, acompanhados de emoções específicas, como admiração, inveja, pena ou desprezo. No estudo, as pessoas em situação de rua receberam escores mais baixos em ambas as dimensões.
Em um segundo experimento, por meio da ferramenta emBODY (Nummenmaa et al., 2014), os participantes foram convidados a mapear emoções primárias (como medo e alegria) e secundárias (como culpa, gratidão e compaixão) em representações de (1) si mesmos, (2) de seus pares universitários e (3) de pessoas em situação de rua. Nessa etapa, os mapas do self foram utilizados como linha de base para comparação. Os resultados mostraram que os mapas emocionais atribuídos às pessoas em situação de rua diferiram mais dos mapas do self do que aqueles atribuídos aos pares universitários, indicando um maior distanciamento na percepção emocional em relação ao exogrupo, enquanto as representações do endogrupo se mantiveram mais próximas da percepção de si.
Segundo Ruth Lyra Romero, os achados de sua pesquisa contradizem a teoria da infra-humanização (ver revisão de Haslam & Loughnan, 2014), ao indicar que tanto emoções básicas quanto complexas são atribuídas a grupos tipicamente desumanizados, apesar das diferenças sutis entre a percepção das emoções em si, nos pares e nesses grupos desumanizados. Os resultados dessa pesquisa ressaltam, assim, que, embora a experiência corporal das emoções possa ser universal, o reconhecimento das emoções no outro está, em alguma medida, sujeito a dinâmicas sociais, identitárias e baseadas em estereótipos.
Implicações práticas
Além de suas contribuições teóricas, conhecer os mapas corporais das emoções também pode auxiliar ações psicoterapêuticas, educacionais e de desenvolvimento tecnológico para saúde mental. Ao compreender como as emoções se expressam fisicamente, é possível identificar sinais precoces de sofrimento psicológico e promover estratégias de autorregulação emocional mais eficazes. Ademais, os estudos reforçam a importância de se prestar mais atenção aos sinais do corpo: frio na barriga antes de uma apresentação, calor no rosto em momentos de vergonha, ou peso nos ombros em situações de tristeza são lembretes de que corpo e mente não funcionam separados. Eles são parte de um mesmo sistema integrado, que reage de forma coerente e articulada às nossas experiências emocionais. ■
Texto por Ana Luísa Freitas.
Ana Luísa Freitas é licenciada em Letras, mestra em Linguística e Língua Portuguesa e doutora em Ciências do Desenvolvimento Humano. Atualmente, é Bolsista de Extensão no País pelo CNPq/INCT-SANI.
Referências
Arnett, J. J. (2009). The neglected 95%, a challenge to psychology’s philosophy of science. American Psychologist, 64(6), 571–574. https://doi.org/10.1037/a0016723
Barsalou, L. W. (2008). Grounded Cognition. Annual Review of Psychology, 59(1), 617–645. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.59.103006.093639
Fiske, S. T., Cuddy, A. J. C., Glick, P., & Xu, J. (2002). A model of (often mixed) stereotype content: Competence and warmth respectively follow from perceived status and competition. Journal of Personality and Social Psychology, 82(6), 878–902. https://doi.org/10.1037/0022-3514.82.6.878
Haslam, N., & Loughnan, S. (2014). Dehumanization and Infrahumanization. Annual Review of Psychology, 65(1), 399–423. https://doi.org/10.1146/annurev-psych-010213-115045
Henrich, J., Heine, S. J., & Norenzayan, A. (2010). The weirdest people in the world? Behavioral and Brain Sciences, 33(2–3), 61–83. https://doi.org/10.1017/S0140525X0999152X
Hietanen, J. K., Glerean, E., Hari, R., & Nummenmaa, L. (2016). Bodily maps of emotions across child development. Developmental Science, 19(6), 1111–1118. https://doi.org/10.1111/desc.12389
Johnson, M. (2007). The meaning of the body: Aesthetics of human understanding. University of Chicago Press.
Johnson, M. (2010). The body in the mind: The bodily basis of meaning, imagination, and reason (Paperback ed., [9. print.]). University of Chicago Press.
Lakoff, G., & Johnson, M. (1980). Metaphors we live by. University of Chicago Press.
Lakoff, G., & Núñez, R. E. (2000). Where mathematics comes from: How the embodied mind brings mathematics into being (Nachdr.). Basic Books.
Nummenmaa, L., Glerean, E., Hari, R., & Hietanen, J. K. (2014). Bodily maps of emotions. Proceedings of the National Academy of Sciences, 111(2), 646–651. https://doi.org/10.1073/pnas.1321664111
Varela, F. J., Thompson, E., & Rosch, E. (2016). The embodied mind: Cognitive science and human experience (revised edition). MIT Press.
Volynets, S., Glerean, E., Hietanen, J. K., Hari, R., & Nummenmaa, L. (2020). Bodily maps of emotions are culturally universal. Emotion, 20(7), 1127–1136. https://doi.org/10.1037/emo0000624