Por dentro do Rethinking the Future III: Fostering Social Equality

Entre os dias 10 e 14 de novembro de 2025, o Rethinking the Future III: Fostering Social Equality (RTF III) reuniu, em São Paulo, pesquisadores, docentes, estudantes e convidados internacionais para uma semana intensa de discussões científicas, trocas interdisciplinares e reflexões sobre os desafios contemporâneos da desigualdade social. O evento foi organizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva (INCT-SANI), em parceria com o Social and Cognitive Neuroscience Laboratory (SCN Lab) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Com uma programação distribuída ao longo de cinco dias temáticos, o evento propôs um diálogo consistente entre a neurociência social e afetiva, a psicologia, a filosofia, as artes e as ciências sociais. As discussões, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, abordaram temas como desigualdade, polarização política, emoções, cooperação, moralidade, saúde mental e justiça social. Ao longo da semana, o público participou de palestras internacionais, apresentações de trabalhos de pós-doutorado do INCT-SANI, relatórios de centros e observatórios do Instituto e uma sessão de pôsteres, que evidenciou a diversidade temática e metodológica das pesquisas desenvolvidas pela rede e por outros grupos brasileiros de pesquisa. Esses espaços favoreceram tanto a divulgação de resultados científicos recentes quanto a construção de novas parcerias acadêmicas, nacionais e internacionais.

As palestras centrais do evento abordaram, sob diferentes perspectivas, os mecanismos psicológicos, sociais e cognitivos envolvidos na manutenção e, potencialmente, na superação das desigualdades sociais. Os temas discutidos incluíram, entre outros, emoções positivas e psicopatologia, cognição, preconceito, moralidade, obediência “cega” à autoridade, desigualdade socioeconômica, polarização política, além de criatividade e arte como experiência coletiva. A seguir, confira uma síntese do que aconteceu em cada um dos cinco dias do evento.

Segunda-feira, 10 de novembro | Neurociência e interdisciplinaridade

Poder, moralidade e desigualdade social

A palestra de abertura do RTF III, ministrada pelo professor Paulo Boggio (Universidade Presbiteriana Mackenzie), coordenador do INCT-SANI, teve como objetivo estabelecer o enquadramento conceitual que orientou os debates ao longo de toda a semana. Em Paradoxes of Power and Morality, Boggio apresentou uma reflexão crítica sobre a forma como a moralidade tem sido tradicionalmente mensurada na Psicologia, articulando dados empíricos e argumentos teóricos para problematizar interpretações amplamente consolidadas na literatura. O pesquisador argumentou que parte das escalas utilizadas para avaliar moralidade não acessa valores morais propriamente ditos, mas disposições psicológicas relacionadas ao que denomina psicologia do poder. Nessa perspectiva, tais instrumentos captariam atitudes associadas à legitimação do status quo e à aceitação de relações de dominação entre grupos e indivíduos, mais do que princípios morais endossados. Ao propor essa distinção, a palestra de abertura lançou bases críticas às discussões subsequentes do evento, conectando moralidade, poder e desigualdade social e convidando à revisão dos pressupostos teóricos e metodológicos que orientam a pesquisa contemporânea nesses domínios.

Narcisismo nacional e teorias conspiratórias na COVID-19

Anni Sternisko, Diretora Executiva do NYU Center for Conflict and Cooperation, discutiu a pandemia de COVID-19 como uma crise não apenas sanitária, mas informacional, marcada pela disseminação de teorias conspiratórias em contextos de ameaça e incerteza. Essas teorias, entendidas como explicações que atribuem eventos complexos à ação secreta de pequenos grupos, tendem a ganhar força por oferecerem sentido e proteção simbólica diante do medo. Em sua apresentação, Sternisko destacou evidências de estudos conduzidos nos Estados Unidos, no Reino Unido e em 56 países, mostrando que o narcisismo nacional — uma forma defensiva de identidade coletiva baseada na crença inflada na grandeza do próprio país — está associado à maior adesão e ao compartilhamento de teorias conspiratórias, bem como à menor adesão a políticas públicas e comportamentos de saúde. Os resultados indicam que esses efeitos se explicam por motivações identitárias, e não por falta de conhecimento, apontando para a necessidade de estratégias de comunicação sensíveis a esses processos.

Obediência, violência extrema e agência moral

Professora associada na Universidade de Ghent (Bélgica) e líder do Moral & Social Brain Lab, Emilie Caspar apresentou resultados de pesquisas conduzidas por meio de entrevistas e dados de eletroencefalografia (EEG) em Ruanda e no Camboja, demonstrando que a obediência “cega” à autoridade pode levar pessoas comuns a cometerem atos de violência extrema, como genocídios. Segundo Caspar, obedecer a ordens reduz o senso de agência e de responsabilidade, facilitando a transferência da culpa para a autoridade ou para o grupo; quanto mais longa e fragmentada é a cadeia de execução da violência, mais intenso é esse efeito. Caspar destacou, ainda, que o processo de desumanização do exogrupo tende a inibir a cognição social e a empatia, substituindo-as por emoções como medo e nojo, o que favorece o desengajamento moral. A principal conclusão apontada é que tais atrocidades não se explicam por traços patológicos individuais, mas por processos situacionais, sociais e cognitivos que reduzem agência, responsabilidade e empatia no contexto da obediência. Essa compreensão pode orientar estratégias de prevenção e reforçar a responsabilização individual. A palestra dialoga diretamente com os argumentos desenvolvidos no livro Just Following Orders: Atrocities and the Brain Science of Obedience (Cambridge University Press, 2024), no qual a autora aprofunda a análise neurocientífica dos mecanismos envolvidos na obediência a ordens violentas.

Mostra de Trabalhos de Pós-doutorado do INCT-SANI

As apresentações de pós-doutorado realizadas na segunda-feira inauguraram esse eixo da programação com pesquisas que articularam inovação metodológica, cognição social e saúde mental. Os trabalhos apresentados evidenciaram abordagens diversas para o estudo do comportamento humano em contextos contemporâneos, combinando perspectivas experimentais, computacionais e aplicadas. O conjunto das apresentações destacou o caráter interdisciplinar das investigações desenvolvidas no âmbito do INCT-SANI e de suas instituições parceiras.

  • Application of Large Language Models (LLMs) in Embodied Conversational Agents
    Paulo Knob (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS)

  • Pushing Polar Opposites Together: An Intergroup Cooperation Intervention Study Across 50 Countries
    Bruna E. F. Mota (Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM)

  • MINDS-Mack: Mental Health, Behavior, and Academic Adaptation in University Students
    Andrezza Estanislau & Mariana Kehl (Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM)


Terça-feira, 11 de novembro | Moralidade e sociedade

Polarização, opacidade e compreensão do outro

Walter Sinnott-Armstrong (Duke University) e Samuel Murray (Providence College) trouxeram um estudo sobre polarização, compreendida por eles como uma divisão extrema de opiniões entre grupos. Esse fenômeno está associado à rigidez cognitiva, à dificuldade de cooperação com o grupo oposto e à redução da percepção de justiça, além de um aumento da opacidade, isto é, da compreensão limitada das crenças, motivações e razões do outro polo. A pesquisa investigou se compreender as razões atribuídas ao grupo oposto poderia reduzir aspectos centrais da polarização. Os resultados indicaram que, quando essas justificativas eram percebidas como boas — baseadas em argumentos consistentes e evidências —, havia um aumento significativo na percepção de inteligência do grupo adversário. Esses achados sugerem que o reconhecimento da qualidade das razões alheias pode favorecer uma visão menos estereotipada do outro e contribuir para a redução da polarização.

Memória, afeto e perdão

Felipe De Brigard (Duke University) discutiu a relação entre memória e perdão, partindo da distinção fundamental entre perdoar e esquecer. O perdão, segundo o argumento apresentado, não envolve o apagamento da experiência de ofensa, mas a capacidade de recordar o ocorrido reconhecendo a responsabilidade do outro e, ainda assim, atenuar o ressentimento associado à lembrança. Nesse processo, o que tende a ser modulado não são os detalhes episódicos da memória, como o que aconteceu ou quem esteve envolvido, mas seus componentes afetivos, especialmente a intensidade da dor e das emoções negativas evocadas. A palestra destacou que essa atenuação emocional é influenciada por fatores como a proximidade com o autor da ofensa e a gravidade do evento, sendo mais plausível em situações cotidianas do que em contextos de violência extrema. Ao ampliar essa discussão para cenários sociais marcados por conflitos prolongados, como o contexto colombiano, o trabalho evidenciou os limites e os desafios do perdão quando a violência permanece presente na vida dos indivíduos. Nesse sentido, a apresentação ressaltou a importância de articular processos psicológicos individuais com dimensões coletivas de memória, reparação e reconstrução social, chamando atenção tanto para os desafios metodológicos quanto para as implicações éticas desse campo de pesquisa. De Brigard é autor de Memory and Remembering (Cambridge University Press, 2023) e editor de outros livros que abordam a interseção entre neurociência e filosofia.

Observatório da Moral — Moralidade, ideologia e comportamento social

O Observatório da Moral é uma iniciativa interdisciplinar do INCT-SANI que busca compreender como a moralidade e a ideologia política interagem e influenciam valores, crenças, julgamentos, atitudes e comportamentos sociais. Na apresentação do primeiro relatório do Observatório, os pesquisadores Roosevelt Vilar (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo) e Gabriel Rêgo (Universidade Presbiteriana Mackenzie) mostraram como escalas que avaliam moralidade, ideologia política e orientações sociais se relacionam entre si, contribuindo para a compreensão de comportamentos preconceituosos em relação a grupos minoritários. A discussão subsequente à apresentação destacou a proposta de uma possível hierarquia entre construtos psicológicos envolvidos nesses processos. Nessa perspectiva, ideologia política e orientações sociais estariam mais diretamente ligadas à forma como as pessoas constroem representações mentais sobre como devem (ou não) interagir com determinados grupos e instituições, enquanto a moralidade atuaria como um pano de fundo avaliativo, moldando concepções sobre o que é certo ou errado e as justificativas mobilizadas para sustentar atitudes e comportamentos.

Mostra de Trabalhos de Pós-doutorado do INCT-SANI

Na terça-feira, as apresentações de pós-doutorado enfatizaram temas relacionados a processos psicológicos básicos e suas implicações sociais, com foco em tomada de decisão, regulação emocional e desigualdades. Os trabalhos refletiram preocupações atuais da neurociência social e afetiva, explorando desde intervenções voltadas a populações específicas até modelos comportamentais aplicados a contextos de vulnerabilidade social e política.

  • Reduction of Cognitive Distortion in Relation to Biases of Body Weight, Gender, Among Others, Through Interaction with (and Modeling) Very Realistic Virtual Humans
    Victor Flávio de Andrade Araujo (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS)

  • Emotional Regulation Program for Young Children
    Stella Rabello Kappler (Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM)

  • Political Harassment in the Workplace: A Research Agenda
    Marília Mesquita Resende (Universidade Estadual de Goiás – UEG)

  • A Behavioral Model for Studying Decision-Making and Mental Health After Extreme Climate Events
    Gibson Weydmann (Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS)

Quarta-feira, 12 de novembro | Desigualdades sociais

Desigualdade, meritocracia e percepções de justiça

Abrindo as discussões sobre desigualdades, Daniela Goya-Tocchetto (University at Buffalo) demonstrou que o raciocínio que endossa a desigualdade no cotidiano também emerge em condições experimentais muito menos complexas. Esse achado evidencia como muitas das crenças investigadas pela psicologia social estão profundamente enraizadas no psiquismo, de modo que, diante de situações que apenas minimamente remetem à competição, um sistema mais amplo de crenças é rapidamente ativado. Em sua análise, Goya-Tocchetto ressaltou, ainda, a urgência de transformar a sociedade e, consequentemente, esses sistemas de crenças, para que estejam mais orientados a promover melhores condições sociais para as pessoas, em vez de reforçar a busca por vantagens individuais. Complementarmente, a palestra apresentou evidências de que a aceitação da desigualdade está fortemente relacionada à forma como as pessoas avaliam a justiça dos processos, mais do que dos resultados em si, um fenômeno descrito como efeito do processo justo. Os estudos mostraram que procedimentos percebidos como equitativos tendem a legitimar resultados desiguais, mesmo quando desigualdades acumuladas afetam as chances reais de sucesso. Assim, a meritocracia pode ser percebida como justa, ainda que produza ou sustente desigualdades estruturais.

Preconceito, sistemas e processos neurais

Dando seguimento às discussões sobre os impactos das desigualdades na sociedade, David Amodio (University of Amsterdam) apresentou evidências de que vieses se espalham de sistemas sociais para indivíduos, argumentando que o preconceito não pode ser atribuído a uma única região cerebral, pois emerge da interação entre múltiplos sistemas neurais. Segundo Amodio, o preconceito deve ser compreendido como um fenômeno multicomponente, que envolve processos de categorização social, aprendizagem, memória, emoção e controle cognitivo. A palestra destacou achados de estudos com EEG e imageamento por ressonância magnética funcional, que mostram que a categorização social ocorre de forma extremamente rápida, nos primeiros 100 ms após o contato com um alvo social, influenciando desde estágios iniciais da percepção até julgamentos mais elaborados. Esses processos iniciais não refletem, necessariamente, hostilidade ou medo, mas a detecção da relevância social de pistas grupais, modulada por objetivos, motivações e normas sociais, contribuindo para a compreensão de como vieses individuais se articulam a dinâmicas sociais mais amplas.

Cognição implícita e desigualdade

Keith Payne (University of North Carolina at Chapel Hill), por sua vez, apresentou pesquisas próprias e de colaboradores sobre os avanços e os limites das investigações em cognição implícita, discutindo, de forma crítica, o que essas medidas efetivamente revelam sobre vieses sociais. Payne destacou que os vieses implícitos não devem ser compreendidos apenas como traços individuais estáveis, mas como padrões cognitivos moldados por contextos históricos, sociais e estruturais mais amplos. Em sua apresentação, enfatizou como processos automáticos de julgamento podem funcionar como uma ponte entre desigualdades sistêmicas e atitudes individuais, contribuindo para a reprodução do racismo e de outras formas de exclusão social. Ao articular evidências experimentais com fenômenos sociais de larga escala, sua palestra reforçou a importância de compreender o viés implícito como parte de um sistema dinâmico, no qual indivíduos e estruturas sociais se influenciam mutuamente. Payne é autor dos livros Good Reasonable People: The Psychology Behind America's Dangerous Divide (Viking, 2024) e The Broken Ladder: How Inequality Affects the Way We Think, Live, and Die (Viking, 2017).

Centro para Igualdade e Diversidade — Mapa das Desigualdades

No compartilhamento do primeiro relatório do Centro para Igualdade e Diversidade do INCT-SANI, conduzido pelas doutorandas Fernanda Pantaleão e Letícia Morello, ambas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, foi apresentado o Mapa das Desigualdades, projeto que investiga como desigualdades sociais afetam experiências cotidianas de discriminação, saúde mental, ativismo e participação política no Brasil. O relatório trouxe resultados preliminares do estudo, indicando, por exemplo, que o status socioeconômico figura entre os motivos mais recorrentes de discriminação relatados pelos participantes. A equipe responsável destacou, ainda, a intenção de expandir o projeto para outros países, por meio do desenvolvimento de mapas de desigualdade comparáveis, com o objetivo de aprofundar a compreensão dos fatores sociais e psicológicos que podem atuar como mecanismos protetivos em populações que vivem em contextos de vulnerabilidade.

Mostra de Trabalhos de Pós-doutorado do INCT-SANI

As apresentações de pós-doutorado da quarta-feira concentraram-se na investigação de dinâmicas sociais ao longo do tempo, abordando temas como ideologia, violência, bem-estar e redes sociais. Os trabalhos apresentados combinaram análises longitudinais, métodos neurocientíficos e abordagens psicossociais, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada dos fatores que sustentam desigualdades e orientações sociais em diferentes grupos.

  • Cognitive Reappraisal and Neural Synchronization: Effects of Regulation Strategies in the Interpersonal Context
    Thayane Castro Carvalho Lemos (Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM)

  • Happiness Gap in Brazil: Historical Legacies of Social Inequality, Conservatism, and System Trust
    Tátila Brito (Universidade de Brasília – UnB)

  • The Relationship Between Family Violence, Inequality- and Authority-Based Ideologies in Adolescents
    Felipe Vilanova (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS)

  • Longitudinal Assessment of Political Ideology in College Students: A Social Network Analysis Study
    Roosevelt Vilar (Universidade Presbiteriana Mackenzie – UPM)

Quinta-feira, 13 de novembro | Neurociência social e afetiva

Redes sociais, homofilia e similaridade neural

Iniciando as palestras do quarto dia de evento, Carolyn Parkinson (UCLA) apresentou resultados de uma série de estudos sobre interações sociais e amizades, utilizando técnicas de hyperscanning em ressonância magnética funcional. Os trabalhos mostram que, ao encontrar outra pessoa, o cérebro recupera, automaticamente, informações sociais relevantes, como características de sua rede de amizades, o grau de confiabilidade dessas relações e o nível de conectividade social, permitindo antecipar comportamentos e orientar a interação social. Além disso, Parkinson destacou o papel da homofilia — tendência de as pessoas se associarem a outras semelhantes a si — nas interações sociais. Os resultados indicaram que amigos apresentam padrões de ativação neural mais semelhantes do que indivíduos socialmente distantes, inclusive em atividades cotidianas. Estudos adicionais mostraram que essa similaridade neural também prediz a formação de novas amizades, sugerindo que padrões neurais compartilhados constituem um dos mecanismos pelos quais a proximidade social é construída, mantida e antecipada ao longo do tempo.

Arte, criatividade e experiência coletiva

Fugindo aos moldes tradicionais da Academia e reiterando o caráter interdisciplinar do Rethinking the Future, a palestra de Sabrina Marques (Western Connecticut State University) abordou a arte e a criatividade como processos essencialmente coletivos. Inserindo ludicidade e leveza, Marques propôs uma atividade em que os participantes do RTF III se reuniram em círculos formados por 16 pessoas, nos quais foram convidados a pintar baseando-se na reprodução da obra Arles: Vista a partir dos campos de trigo (1888), do pintor neerlandês Vincent Van Gogh (1853-1890), ampliada e fragmentada em uma grade 4x4. Os participantes precisavam reproduzir os recortes de pintura a eles designados, a partir de suas próprias percepções. Ao final, os desenhos foram reunidos em uma nova grade 4x4 e aquilo que, de forma isolada, parecia apenas um conjunto de padrões de tinta sem sentido transformou-se em uma obra integrada, construída pela soma das singularidades do olhar de cada participante. A experiência evidenciou que o sentido da arte emerge na e pela comunidade, demonstrando que é no compartilhamento que a criatividade se expande e ganha significado.

Emoções positivas, psicopatologia e adaptação

Na palestra Paradoxes of Positivity, June Gruber (University of Colorado Boulder) apresentou uma abordagem crítica sobre o papel das emoções positivas, questionando a ideia de que elas são sempre adaptativas. A palestrante destacou que emoções positivas e negativas podem coexistir e desempenhar funções complementares, ultrapassando uma compreensão dicotômica da vida emocional. Um exemplo é a solidão, tradicionalmente associada ao sofrimento, mas que pode exercer uma função adaptativa ao atuar como um sinal de alerta para a necessidade de reconexão social, fortalecimento de vínculos ou reflexão sobre a qualidade das relações interpessoais. Ampliando essa perspectiva, Gruber discutiu os chamados silver linings das psicopatologias, argumentando que transtornos mentais, embora frequentemente associados ao sofrimento, podem envolver aspectos funcionais relevantes nos âmbitos social, cognitivo e de enfrentamento (coping). Essa abordagem contribui para a redução do estigma e favorece uma compreensão mais integrada da promoção da saúde mental, ao considerar não apenas déficits, mas estratégias adaptativas e pontos fortes dos indivíduos. A palestra ressaltou, ainda, que emoções negativas e experiências desagradáveis desempenham funções importantes, podendo, por exemplo, favorecer comportamentos pró-sociais e maior engajamento cooperativo — uma perspectiva que dialoga com abordagens cognitivo-comportamentais e terapias contextuais, ao enfatizar o indivíduo em sua totalidade, e não apenas a partir de seus sintomas.

Observatório das Emoções - Mapa das Emoções

O Relatório do Observatório das Emoções apresentou um panorama geral dos planos de continuidade do Observatório das Emoções, destacando suas frentes de atuação e objetivos estratégicos no âmbito do INCT-SANI. O relatório também detalhou, de forma mais específica, as diretrizes para a condução do Mapa das Emoções, um projeto interno que tem como propósito mapear, com maior granularidade, a vida emocional da população brasileira. Hoje sob responsabilidade de Beatriz B. de Souza e coordenação do professor Paulo Boggio, a iniciativa busca integrar evidências empíricas sobre experiências emocionais a contextos sociais, culturais e econômicos, contribuindo para uma compreensão mais ampla das emoções no cotidiano. Ao sistematizar esses dados, o projeto visa fortalecer a produção de conhecimento socialmente relevante e subsidiar futuras pesquisas e intervenções voltadas à promoção do bem-estar emocional e à redução de desigualdades em nível nacional.

Mostra de Trabalhos de Pós-doutorado do INCT-SANI

No último ciclo de apresentações de pós-doutorado, as pesquisas apresentadas exploraram emoções, relações interpessoais, religião, confiança e tomada de decisão em contextos sociais complexos. Os trabalhos apresentados destacaram a diversidade temática e metodológica das investigações, evidenciando o potencial das pesquisas desenvolvidas para dialogar com desafios sociais contemporâneos e ampliar o impacto científico do INCT-SANI.

  • Autobiographical Recall of Events Related to Self-Conscious Emotions: Physiological and Phenomenological Aspects
    Tuíla Felinto (Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS)

  • Different Resting-State Connectivity Profiles Among Religious and Non-Religious Participants
    Adriano da Silva Costa (Universidade Federal do ABC – UFABC)

  • Cortical Activity in Distinguishing Genuine from Fraudulent Romantic Interactions: Links to Trust and Financial Fraud Susceptibility
    Glysa de Oliveira Meneses (Universidade de Brasília – UnB)

  • Partisan Asymmetries in Authoritarian Fears and Collective Future Visions of Democratic Collapse

    Waldir M. Sampaio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio)

Sexta-feira, 14 de novembro | Construindo pontes

Para encerrar o Rethinking the Future III: Fostering Social Equality, a primeira sessão de pôsteres da série RTF reuniu 35 trabalhos de diferentes instituições e regiões do país, contemplando temas como emoções, moralidade, desigualdade, cooperação, valores humanos, saúde mental e técnicas neurocientíficas. A atividade, distribuída em dois turnos (manhã e tarde), promoveu a participação ativa de estudantes de graduação, pós-graduação e jovens pesquisadores, fortalecendo a formação científica e o intercâmbio entre grupos de pesquisa.

Nesse contexto, a sessão contou com a premiação dos melhores trabalhos, reconhecendo a excelência das pesquisas apresentadas em diferentes níveis de formação. Foram concedidos Best Poster Awards nas categorias Graduação, Mestrado e Doutorado, destacando investigações que se sobressaíram pela relevância teórica, pelo rigor metodológico e pela contribuição para os temas centrais do evento.

Na categoria Graduação, foram premiados os trabalhos Emotions and Memories: The Emotional Impact on the Recall of Social Exclusion Experiences, de Melissa Neves (Universidade Presbiteriana Mackenzie), e Effects of Cannabidiol on Brain Activity in Individuals with Anxiety Disorders: An Investigation Using EEG, de Natan Silva de Andrade (Universidade Federal da Paraíba). Na categoria Mestrado, o prêmio foi concedido ao trabalho Neuromodulation of Gratitude Using Transcranial Direct Current Stimulation in the Medial Prefrontal Cortex, de Beatriz B. de Souza (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Já na categoria Doutorado, o trabalho premiado foi The Association Between Connectome Fingerprints and Global Metastability in Distinct Datasets, de Tiago Duarte-Pereira (Universidade Federal do ABC). A premiação reforça o compromisso do INCT-SANI com a valorização da formação científica e com o incentivo à produção de conhecimento de alta qualidade em diferentes etapas da trajetória acadêmica.

Por mais ciência com diálogo e impacto social

Ao longo de toda a programação, o Rethinking the Future III reafirmou a dedicação do INCT-SANI para promover uma ciência aberta ao diálogo interdisciplinar e comprometida com a transformação social. Mais do que um espaço de exposição de resultados, o evento constituiu-se como um ambiente de escuta, reflexão crítica e construção coletiva de caminhos para uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.

A próxima edição do evento - Rethinking the Future IV: Reconstructing Human Connection - já tem data para acontecer. Anote na agenda: de 28 de setembro a 02 de outubro de 2026, no campus da Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP), você tem um encontro marcado com a gente. Acompanhe-nos em nossas redes sociais e se inscreva em nossa newsletter para receber atualizações.

Participantes do Rethinking the Future III: Fostering Social Equality, no último dia do evento, após a sessão solene de encerramento. (Foto: Divulgação)

*As imagens que acompanham esta publicação foram registradas por Ana Luísa Freitas (INCT-SANI) durante o Rethinking the Future III.

**Este texto reúne sínteses das palestras e atividades do evento, elaboradas por discentes e pesquisadores da rede INCT-SANI, que foram convidados a pensar sobre os conteúdos apresentados durante o congresso. O conteúdo aqui apresentado reflete as leituras e interpretações daqueles que contribuíram para a escrita desta publicação. São eles:

Ana Luísa Freitas, Doutora em Ciências do Desenvolvimento Humano (UPM), bolsista de Extensão no País do CNPq/INCT-SANI.
Beatriz B. de Souza, Mestra em Ciências do Desenvolvimento Humano (UPM), bolsista de Desenvolvimento Tecnológico Industrial do CNPq/INCT-SANI.
Esther Décourt, graduanda em Psicologia (UPM).
Felipe Vilanova, Doutor em Psicologia (PUC-RS), bolsista de pós-doutorado  do CNPq/INCT-SANI.
Fernanda Pantaleão, doutoranda em Ciências do Desenvolvimento Humano (UPM), bolsista de doutorado da FAPESP.
Lorenzo F. Reichter, graduando em Psicologia, bolsista de Iniciação Científica da FAPESP.
Melissa Neves, graduanda em Psicologia (UPM), bolsista de Iniciação Científica do CNPq/INCT-SANI.
Miriã B. Tebas, doutoranda em Ciências do Desenvolvimento Humano (UPM).
Ruth Lyra Romero, doutoranda em Ciências do Desenvolvimento Humano (UPM), bolsista de doutorado da FAPESP.
Tuíla Felinto, Doutora em Psicologia (UFRGS), bolsista de Apoio Técnico a Pesquisa do CNPq.
Yasmin Simon, graduanda em Psicologia (UPM).

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