Quando a eliminação do outro vira vitória coletiva: o que a ciência diz sobre Schadenfreude

Na noite de ontem, o paredão do Big Brother Brasil 26 mobilizou torcidas, comentários e análises nas redes sociais. Sarah Andrade foi eliminada em um paredão triplo que também incluía Babu Santana e Sol Vega, três veteranos do reality show da Rede Globo. Dentro da casa, Sarah e Sol integravam um mesmo grupo, ao qual Babu se posiciona como alheio. Indicado pelo líder Jonas Sulzbach, o emparedado Babu teve direito ao contragolpe, escolhendo Sarah para compor o paredão. Essa foi uma escolha aparentemente atravessada por tensões já explícitas na convivência entre os dois. Após o anúncio da eliminação por Tadeu Schmidt, Babu comemorou efusivamente sua permanência no programa. Não houve, naquele momento, quaisquer manifestações públicas de apoio à participante eliminada.

Como interpretar uma cena como essa?

Em português, não há um nome específico para esse tipo particular de regozijo, para usar um dos termos favoritos do ex-BBB Gil do Vigor. Mas os alemães nomearam de Schadenfreude (Schaden = dano; Freude = alegria) essa satisfação que podemos sentir diante do infortúnio de outra pessoa, especialmente quando há competição ou forte identificação com os grupos aos quais nos sentimos pertencentes. Importante: identificar um fenômeno psicológico não significa atribuí-lo a pessoas específicas. O que a ciência investiga são padrões gerais de funcionamento emocional em contextos sociais. E o Big Brother é, nesse sentido, um laboratório público de dinâmicas intergrupais.

Rivalidade, identidade e emoção

Décadas de pesquisa mostram que a maneira como reagimos ao sucesso ou fracasso de alguém depende menos de características individuais e mais das relações entre grupos. Para investigar isso, estudos conduzidos pela pesquisadora Mina Cikara (Harvard University) e seus colaboradores demonstram que, quando nos sentimos parte de um “nós” (endogrupo) em oposição a um “eles” (exogrupo), o sofrimento do grupo encarado como rival pode ser vivenciado como ganho coletivo. (Cikara, Botvinick & Fiske, 2011).

Em experimentos com torcedores de beisebol, por exemplo, participantes relataram prazer ao assistir ao fracasso do time adversário, reação associada à atividade cerebral em regiões ligadas à recompensa (Cikara, Botvinick & Fiske, 2011). Esse padrão não depende, contudo, de rivalidades históricas. Em estudos laboratoriais, grupos formados de maneira arbitrária poucos minutos antes de uma tarefa já são suficientes para produzir viés intergrupal: quando há competição, a empatia pelo grupo rival tende a diminuir e pode dar lugar a respostas opostas, como satisfação diante do seu fracasso (Cikara et al., 2014).

Empatia, falha empática e “contraempatia”

Tradicionalmente, a literatura psicológica descreve a tendência de sentir menos empatia por membros do exogrupo como “falha empática” (Cikara, Bruneau & Saxe, 2011). No entanto, as pesquisas da última década têm mostrado que o fenômeno pode ir além da simples ausência de empatia. Em determinados contextos competitivos, as pessoas não apenas deixam de sentir compaixão pelo sofrimento do outro, mas podem experimentar uma reação emocional inversa, fenômeno descrito como “contraempatia” (Cikara et al., 2014). Schadenfreude é, então, uma forma específica dessa resposta contraempática.

O que acontece no cérebro?

Pesquisas com neuroimagem indicam que o fracasso de um grupo percebido como rival pode ativar o estriado ventral, estrutura subcortical associada a processos de recompensa e aprendizado por reforço (Cikara, Botvinick & Fiske, 2011). Essa mesma região é mais ativada em situações tradicionalmente consideradas prazerosas, como ganhos financeiros. Mais importante ainda: a intensidade dessa ativação neural prediz maior disposição posterior para prejudicar membros do grupo rival e menor disposição para ajudá-los (Cikara, Botvinick & Fiske, 2011).

Em um artigo de revisão publicado em 2015, Cikara propõe que a Schadenfreude intergrupal pode funcionar como mecanismo de aprendizagem social: ao associar repetidamente o sofrimento do grupo rival a experiências positivas, reduz-se gradualmente a aversão a causar dano (Cikara, 2015). Em contextos extremos, essa dinâmica pode contribuir para a escalada da violência coletiva. Reality shows estão muito distantes de cenários de violência real. No entanto, os mecanismos psicológicos básicos envolvidos — categorização, identificação, competição e recompensa — são os mesmos.

Entre entretenimento e ciência

No caso do paredão de ontem, a comemoração de Babu sobre sua própria permanência pode ser compreendida como expressão legítima de alívio e vitória individual. Ao mesmo tempo, quando há tensão prévia e indicação direta ao paredão, o episódio ilustra como as rivalidades estruturam a leitura emocional de um evento. Programas como o BBB intensificam divisões simbólicas: alianças, contragolpes, torcidas e narrativas de oposição. O público também tende a se identificar com participantes e grupos específicos e, nessas circunstâncias, a eliminação de alguém pode ser vivida como triunfo do “nosso lado”. Schadenfreude, portanto, não emerge do vazio, tampouco é apenas uma emoção individual. Ela é profundamente social e depende de identidade, comparação e competição.

Por que isso importa?

Compreender fenômenos sociais e afetivos, como Schadenfreude, ajuda a refletir sobre nossas próprias reações, não apenas diante de filmes, séries e reality shows, mas também em contextos esportivos, políticos e ideológicos. Quando a derrota do outro nos traz satisfação, o que está em jogo não é apenas um sentimento isolado, mas a forma como nos posicionamos em relação aos grupos aos quais pertencemos.

E que reste claro: a ciência não julga emoções; ela investiga seu funcionamento. Ao entendermos melhor essas dinâmicas, ampliamos, assim, nossa consciência sobre como rivalidades moldam percepções, atitudes e comportamentos, o que nos dá maior aparato para lidarmos com questões sociais de impactos e magnitudes diversas. ■


Texto por Ana Luísa Freitas.
Ana Luísa Freitas é licenciada em Letras, mestra em Linguística e Língua Portuguesa e doutora em Ciências do Desenvolvimento Humano. Atualmente, é Bolsista de Extensão no País pelo CNPq/INCT-SANI.


Referências

Cikara, M. (2015). Intergroup schadenfreude: Motivating participation in collective violence. Current opinion in behavioral sciences, 3, 12-17. http://dx.doi.org/10.1016/j.cobeha.2014.12.007 
Cikara, M., Botvinick, M. M., & Fiske, S. T. (2011). Us versus them: Social identity shapes neural responses to intergroup competition and harm. Psychological science, 22(3), 306-313. https://doi.org/10.1177/0956797610397667 
Cikara, M., Bruneau, E. G., & Saxe, R. R. (2011). Us and them: Intergroup failures of empathy. Current Directions in Psychological Science, 20(3), 149-153. https://doi.org/10.1177/0963721411408713 
Cikara, M., & Fiske, S. T. (2012). Stereotypes and schadenfreude: Affective and physiological markers of pleasure at outgroup misfortunes. Social psychological and personality science, 3(1), 63-71. https://doi.org/10.1177/1948550611409245 
Cikara, M., & Fiske, S. T. (2013). Their pain, our pleasure: stereotype content and schadenfreude. Annals of the New York Academy of Sciences, 1299(1), 52-59. https://doi.org/10.1111/nyas.12179

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